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23/08/2010

Férias escondem despedimentos

Sindicatos acusam patrões de aproveitarem o período de descanso anual dos trabalhadores para fechar

São de angústia os dias que estão a viver os 60 funcionários da Desicolor, uma fábrica de estampagem de tecidos, em Braga. Acabados de entrar de férias após vários meses de quebras sucessivas nas encomendas e de redução do volume de trabalho, os trabalhadores da empresa depararam-se, ainda na semana passada, com a retirada de maquinaria da fábrica. Surpreendidos com a situação, os funcionários da Desicolor dizem temer a possibilidade de, no regresso das férias, poderem vir a encontrar os portões da empresa definitivamente fechados.

A situação foi denunciada ao DN pelo Sindicato dos Trabalhadores de Vestuário e Confecção Têxtil do Norte, que destacou que a retirada de máquinas das instalações "é um sinal" de que a empresa pode estar a preparar-se para aproveitar as férias dos funcionários para pôr um ponto final na sua actividade. "Ficámos naturalmente assustadas por ver que estavam a tirar o recheio da empresa", afirmou ao DN uma das funcionárias da Desicolor, que pediu para não ser identificada.

De acordo com esta fonte, a preocupação dos trabalhadores justifica-se com a descida no número de encomendas da empresa: "Estamos a trabalhar pouco há algum tempo, e agora descobrimos que estão a tirar máquinas. Tendo em conta esta situação, pensamos lo-go que a fábrica vai fechar", confidenciou, sublinhando que a administração da empresa não deu qualquer explicação para estas movimentações.

"Já vimos o que aconteceu com outras empresas na mesma situação e temos medo de encontrar tudo fechado em meados de Setembro, quando regressarmos das férias", salientou. O DN tentou contactar a administração da Desicolor, mas ninguém esteve disponível para prestar esclarecimentos.

Uma situação semelhante à que podem enfrentar as funcionárias da unidade têxtil de Braga foi vivida no final de Junho pelos 12 empregados da ZS Mobiliário, uma empresa de construção de móveis de Rebordosa, Paredes.

Face às dificuldades económicas que atravessava a unidade - e que incluíam já dois meses de incumprimento no pagamento dos salários dos trabalhadores -, a direcção da ZS decidiu antecipar as férias dos seus funcionários. Quando, a 26 de Junho, regressaram ao trabalho, os trabalhadores da unidade de Paredes foram impedidos de entrar ao trabalho, ao mesmo tempo que o patrão procedia à retirada de todo o recheio da empresa. A situação está agora entregue aos tribunais.

Este tipo de situação materializa um alerta feito pela CGTP ao DN no início do Verão, sublinhando a possibilidade de este ano se verificar "um aumento do número de fábricas que vão de férias e aproveitam esse período para encerrar definitivamente de forma ilegal" .

Segundo Arménio Carlos, da comissão executiva da intersindical, há um cenário comum a quase todos os casos registados: "normalmente há dificuldades no negócio, há muitas vezes salários em atraso, e os períodos de férias são aproveitados pelos patrões para fechar a empresa sem pagar os valores em falta e para retirar as máquinas e os bens das fábricas." "Quando os trabalhadores chegam das férias, já não há nada", sublinhou o dirigente sindical, recordando que este tem sido um fenómeno - a par do aumento dos "atentados aos direitos dos trabalhadores" - cada vez mais frequente em Portugal.

http://dn.sapo.pt/bolsa/emprego/interior.aspx?content_id=1646424

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